A educação passa por um momento no mínimo interessante, para não dizer triste.
Conversando com um professor, ele afirmou que a escola está em extinção. Foi uma observação rápida, feita à saída de uma sala de reunião.
Refleti bastante sobre o que ele falou e acredito, sinceramente, que dependendo do recorte que fizermos, poderemos até afirmar que já se extinguiu. Mas qual é então a diferença, pelo recorte, para poder afirmar que está em extinção e já se extinguiu? Acredito assim: porque podemos considerar que houve uma ruptura com o abandono total dos antigos valores, e estes, da estrutura, agonizam e não encontram eco entre as idéias liberais, que de forma tão organizada desorganizaram tanto a nossa sociedade. De outra forma, podemos considerar que se encontra em extinção porque o período é de transição, e o que acontece é um fato conjuntural, e que tudo se acomodará com o passar do tempo, só que de uma forma diferente a que os mais conservadores estão acostumados.
Diante deste quadro de mudanças dentro do mundo escolar, em que o professor que era chamado pelo nome antecedido de “Professor”, e agora é chamado por crianças de tenra idade pelo nome simplesmente, acompanhado de um “chega mais”. Diante dos palavrões que são pronunciados por alunos e alunas em qualquer setor da escola. Diante da insegurança dos profissionais da área da educação, que vêem desmoronar seu mundo porque com a escola “todo mundo mete a mão”, mesmo por quem nunca ficou fechado dentro de uma sala de aula com trinta, quarenta adolescentes, das mais diferentes origens e formas de educação, e agem como “experts”, à sombra das leis, feitas por quem, sabem os profissionais da educação, que também nunca tiverem a experiência docente. E diante de uma série de problemas que poderiam ser enumerados, remetendo todos às citações do parágrafo inicial.
Um dos grandes dilemas dos professores, e que se discute muito em encontros, é o peso de duas palavras: educar e punir, confundidas às vezes, pelas colocações equivocadas, oportunista, às vezes, políticas, geralmente por políticos, magistrados, promotores, jornalistas e educadores de gabinete.
Uma frase que tirei da leitura de um trabalho de Michel Foucalt diz assim: “É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir”.
Lembro que em uma reunião uma colega falou em punição. Sem rebatê-la porque não tinha uma posição sobre o tema, iniciei uma estratégia para entender o que estava ouvindo, e já nas primeiras observações, indaguei-me se tomar medidas que corrijam crianças e adolescentes, que sabemos nos pedem socorro como foi bem salientado por outra colega da discussão, exigem silenciosamente que seus mestres os orientem, sempre podem significar punição.
Recorro à outra idéia de Foucalt, esclarecedora:
(...) semelhante à gravitação dos corpos, uma força secreta nos empurra sempre para o nosso bem estar. Esse impulso só é afetado pelos obstáculos que a lei lhe impõe. Todas as várias ações dos homens são efeitos dessa tendência interior.
Temos que entender que estão aí algumas das idéias básicas que possibilitaram o desenvolvimento do capitalismo: o egoísmo, o individualismo e o oportunismo. E assim, se temos que entender que devemos refrear os impulsos, porque não na escola? E porque, se temos que controlá-los – os impulsos - dentro das escolas, devemos fazê-lo reféns de profissionais que citei anteriormente e que faço questão de repetir que são políticos, magistrados, promotores, jornalistas e educadores de gabinete, e podemos incluir aí, às vezes o Conselho Tutelar que é político e não técnico? Porque não podemos nós, profissionais da educação, de forma independente, alicerçados em conhecimentos arduamente obtidos em inúmeras horas de estudo em bancos universitários, em intermináveis noites, domingos e feriados de leituras, decidir com mais autoridade sobre o destino da escola sem ter que ser submetidos aos mais profundos desconhecedores do ensino, investidos por ampla e triste autoridade, mas infelizmente vazios de uma legitimidade desalentadora?
Esse é um tema interessante, que poderia e deveria ser alvo de um amplo debate, tendo em vista o medo negado pelos profissionais da área da educação, mas que existe. Sabe-se que a cada palavra pronunciada uma dúvida, a cada gesto um receio, e para a infelicidade de todos e o mal geral da nação, o desconhecimento do presente nega posições ao futuro... bem próximo.
Um comentário:
Muito interessante teu artigo...Penso também que poderia e deveria ser alvo de um amplo debate.
Na revista Veja, 5 de abril de 2006, foi publicada uma reportagem com o título: Com a palavra, o professor.
Coloco aqui, um trecho desta reportagem para que possamos refletir.
(...), existe um fator externo à escola. Trata-se da dificuldade dos pais impor limites a seus filhos. O principal motivo apontado na pesquisa é a indisciplina (...). Os pais têm medo de impor limites, porque podem traumatizar os filhos. E isso traz consequências graves para a família, a escola e a sociedade. "Ninguém pode viver fazendo só o que quer e o que gosta.
(...) o acesso à educação é um direito do cidadão brasileiro, o que obriga os pais a colocar seus filhos na escola.Acontece que a cada direito corresponde um dever. Então, se a criança tem o direito à educação, ela tem o dever de estudar.
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