Talvez seja pelo avanço inexorável da idade (meu Deus!), que me surpreendo e encanto em cada passo com coisas inusitadas, até com aquelas velhas tampas de esgotos espalhadas pelo centro da cidade e começo a devanear (o que parece, a princípio, uma pobreza de espírito). Vejo muitas já desgastadas, e que já não é mais nem possível ler as velhas inscrições que datam o início do século passado. De forma intrigante, não consigo deixar de imaginar quantas pessoas já passaram ali, gastando aquela grossa placa de ferro fundido, deixando-a completamente lisa.
Andar pelo centro para esse observador, então, tudo é história. Até os antigos postes de ferro cerrados, quase imperceptíveis junto ao passeio da Rua Vinte e Quatro de Maio, que trazem recordações dos bondes, remetendo-me sonhador aos seus antigos passageiros, e que muitos conheci, de todas as classes sociais, predominantemente do proletariado, que usavam aquela lenta condução para se deslocar na minúscula cidade, por uma passagem com preço proporcional, chacoalhando no pequeno espaço que arrastava atrás de si aquela nuvem de poeira de cinza, sobra das velhas locomotivas e colocada à beira da linha para cobrir a areia.
Enquanto ando pela rua mutilada posso rever os trilhos, e percebo que alguns ainda deixaram algumas marcas sutis e teimosas que se esgueiram entre os paralelepípedos, com toda a certeza para não se deixar esquecer. Impossível não lembrar os finais de linha, quando o motorneiro se apressava para virar os bancos no sentido do novo itinerário, para que os passageiros ficassem com sua visão voltada para frente do transporte coletivo.
Incrível é que quando pensamos, somos arrastados por um redemoinho que nos arrasta, e desse modo, sou levado a imaginar conversas fúteis e até conluios tramados nas paradas, nos corredores e nos bancos dos velhos bondes em tempo fugaz. Vivendo em um momento político, penso comigo mesmo quantos candidatos certamente surgiram em alguns dos itinerários, no Saraiva, no Prado, no Esporte, no Linha Nova, no Parque. Quantos políticos eleitos perderam e ganharam convicção ali. Discorrendo às intimidades, tento adivinhar quantos casamentos provavelmente desfizeram-se pelo descobrimento, no interior dos velhos bondes, da sintonia de um coração que pulsava em compasso diferente, mas que atendia o ritmo do amante desconsolado ou da amante desconsolada. Quantas viúvas encontraram um novo amor e deixaram de chorar seus prantos naquele velho sonho do passado.
Bonde dos sonhos desfeitos. Bonde dos sonhos construídos. Bonde dos intolerantes inimigos. Bonde dos amantes. Bonde dos ignorados.
Vinte quatro da história racional. Vinte Quatro da poesia sentimental. Vinte e Quatro das passeatas e dos desfiles passageiros.
Em Rio Grande, e em todo o lugar, só encontramos ruas dos sonhos. Basta querer com elas sonhar.
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