domingo, 12 de setembro de 2010

TEXTO ESQUECIDO

Temos uma característica interessante que é esquecer. Às vezes ela se mostra positiva, às vezes negativa.
Posso imaginar se lembrássemos a dor com a mesma intensidade, que pavor seria revivê-la a cada momento. Então é positiva a capacidade de esquecer. Entretanto, em outros momentos da nossa vida essa característica pode tornar-se nossa inimiga.
Lembro que há alguns anos atrás, o assunto mais discutido na imprensa eram os trangênicos. Na onda dos acontecimentos escrevi um texto que o jornal não quis publicar. Então, aproveito este espaço para fazê-lo, pois embora ligado a um momento específico, não esvaiu-se em seu teor.

O PINTO TRANGÊNICO DO PRESIDENTE TEODORO

A polêmica estava formada em Malandrová, entre os Modernistas e os Caipiras. Os Modernistas defendiam as transformações tecnológicas, mas os Caipiras, conservadores, alegavam que o que os Modernistas realmente queriam era defender o interesse dos grandes proprietários, ricos e poderosos, em detrimento aos interesses populares e da nação.

O motivo para o recrudescer das relações entre as partes, deveu-se a inovação no campo da genética que os Modernistas defendiam com unhas e dentes. O professor Raposo Mão Santa, professor universitário, disse que desenvolveu em seu laboratório de pesquisas, nada mais, nada menos, do que um frango modificado. A invenção para os Modernistas significava a descoberta da galinha dos ovos de ouro, ou melhor, o frango com ovos de ouro... ou quase. As modificações obtidas em laboratório, segundo o pesquisador, trariam uma melhoria em termos econômicos para os criadores. Os novos galináceos apresentavam maiores coxas, maiores peitos, asas menores e praticamente nada de cérebro. Entretanto, para conseguir levar a cabo a experiência, o pesquisador teve que aceitar algumas transformações mais radicais na ave e a principal, foi a inversão do aparelho digestivo. Assim, a cloaca ficou na cabeça, o que junto a diminuição do cérebro deu uma característica toda especial ao bichinho. Consequentemente, a boca ficou onde antes se localizava a cloaca.

Para apaziguar os ânimos, lá em Malandrová, entre os Modernistas e os Caipiras, foi convidado para mediar a contenda o próprio presidente (Teodoro, liberal de última hora). Os Modernistas, espertos, para promover seu produto, anteciparam-se aos Caipiras e deram ao presidente um pintinho modificado. Lisonjeado, o primeiro mandatário agradeceu e foi para a entrevista coletiva. Lá chegando, colocou o pinto sobre seu colo e os puxa-sacos todos na volta, todos bajulando o pintinho do presidente. –Ai, que lindinho - dizia uma jornalista.- Olha, tem a cabecinha pelada e pequena dizia outro.- E é roxa!!! completou um repórter. Muitos tentavam agarrar o pintinho modificado do presidente, mas isso ele não deixava e dizia: - Se os companheiro querem olhar podem olhar, mas tocar não. Seguiu-se a entrevista e uma moça comentou, olhando e quase passando a mão na cabecinha do pintinho modificado do presidente: - Que bonitinho, tão pequenininho!

Os Modernistas, em seu canto, davam risadas a entreolhavam-se satisfeitos. Todos estavam adorando o pintinho que já não era mais visto como uma aberração, com a cloaca na cabeça, que se sentava sobre o milho às refeições, que escovava o bico de costas para o espelho. Todos estavam gostando do pintinho do presidente (Teodoro, liberal de última hora), mesmo a sua mulher que tocava na cabecinha e até em todo ele, fazendo: bilú, bilú, acariciando-o com a ponta do indicador e contornando o bico redondinho do pintinho modificado e presenteado ao presidente - afinal, ela podia. Os puxa-sacos riam, mas estes ririam até do peru presenteado ou não do presidente. Como todos riam! principalmente os Modernistas que antecipavam e indiscretamente comentavam: tá no papo do pintinho, ou melhor, o pintinho - modificado.

Nenhum comentário: