domingo, 26 de setembro de 2010

MORENINHA - de Casemiro de Abreu

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha.
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d'amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.


Quando tu passas n'aldeia
Diz o povo à boca cheia:
-"Mulher mais linda não há!
"Ai! Vejam como é bonita
"Co'as tranças presas na fita,
"Co'as flores no samburá!" -


Tu és meiga, és inocente
Como a rôla que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena - não tens rival!


Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!


Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando, pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!
E disse então: - Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.


Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há:
Ninguém t'iguala ou t'imita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!


Tu és a deusa da praça
E todo o homem que passa
Apenas vin-te... parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Porque sua alma ficou!


Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
rufando a ave no espinheiro
tu soltas também a voz:
- Oh! Quem me compra estas flores?
São lindas como ao amores
"Tão velas não há assim;
"Foram banhadas de orvalho,
"São flores do meu serralho,
"Colhi-as no meu jardim." -


Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
- Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!...


Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má;
- Como tu ficas bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!


Eu disse então: - Meus amores,
"Deixa mirar tuas flores,
Deixa perfumes sentir!"
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!


Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã;
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelho como a romã!


Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta...
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!


Ai! Morena, ai! Meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,/mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem!...


Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te - rosa da aldeia -
Como mais linda não há.
- Jesus! Como eras bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!


FONTE: http://www.casimiro.rj.gov.br/poemas.php?op=Moreninha


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

CIDADE ACESA

Talvez seja pelo avanço inexorável da idade (meu Deus!), que me surpreendo e encanto em cada passo com coisas inusitadas, até com aquelas velhas tampas de esgotos espalhadas pelo centro da cidade e começo a devanear (o que parece, a princípio, uma pobreza de espírito). Vejo muitas já desgastadas, e que já não é mais nem possível ler as velhas inscrições que datam o início do século passado. De forma intrigante, não consigo deixar de imaginar quantas pessoas já passaram ali, gastando aquela grossa placa de ferro fundido, deixando-a completamente lisa.

Andar pelo centro para esse observador, então, tudo é história. Até os antigos postes de ferro cerrados, quase imperceptíveis junto ao passeio da Rua Vinte e Quatro de Maio, que trazem recordações dos bondes, remetendo-me sonhador aos seus antigos passageiros, e que muitos conheci, de todas as classes sociais, predominantemente do proletariado, que usavam aquela lenta condução para se deslocar na minúscula cidade, por uma passagem com preço proporcional, chacoalhando no pequeno espaço que arrastava atrás de si aquela nuvem de poeira de cinza, sobra das velhas locomotivas e colocada à beira da linha para cobrir a areia.

Enquanto ando pela rua mutilada posso rever os trilhos, e percebo que alguns ainda deixaram algumas marcas sutis e teimosas que se esgueiram entre os paralelepípedos, com toda a certeza para não se deixar esquecer. Impossível não lembrar os finais de linha, quando o motorneiro se apressava para virar os bancos no sentido do novo itinerário, para que os passageiros ficassem com sua visão voltada para frente do transporte coletivo.

Incrível é que quando pensamos, somos arrastados por um redemoinho que nos arrasta, e desse modo, sou levado a imaginar conversas fúteis e até conluios tramados nas paradas, nos corredores e nos bancos dos velhos bondes em tempo fugaz. Vivendo em um momento político, penso comigo mesmo quantos candidatos certamente surgiram em alguns dos itinerários, no Saraiva, no Prado, no Esporte, no Linha Nova, no Parque. Quantos políticos eleitos perderam e ganharam convicção ali. Discorrendo às intimidades, tento adivinhar quantos casamentos provavelmente desfizeram-se pelo descobrimento, no interior dos velhos bondes, da sintonia de um coração que pulsava em compasso diferente, mas que atendia o ritmo do amante desconsolado ou da amante desconsolada. Quantas viúvas encontraram um novo amor e deixaram de chorar seus prantos naquele velho sonho do passado.

Bonde dos sonhos desfeitos. Bonde dos sonhos construídos. Bonde dos intolerantes inimigos. Bonde dos amantes. Bonde dos ignorados.

Vinte quatro da história racional. Vinte Quatro da poesia sentimental. Vinte e Quatro das passeatas e dos desfiles passageiros.

Em Rio Grande, e em todo o lugar, só encontramos ruas dos sonhos. Basta querer com elas sonhar.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

40 ANOS SEM JIMY HENDRIX

A música exerce um grande fascínio sobre o homem. Cientes disso, alguns empresários lançam-se à descoberta de valores e investem neles. Como conseqüência, criam modismos que se superam a cada dia devido a velocidade das comunicações. As músicas, de baixa qualidade, adquirem forma descartável. Mas, em meio a este furacão, misturados a mediocridade surgem trabalhos inesquecíveis, que o tempo acaba por selecionar, e cedo ou tarde, após passada “a onda“, vemos ressurgirem músicas que podem ser incluídas entre os clássicos.

Com a criação do rock, na década de 1950, começam a emergir verdadeiros gênios. E a cada curto espaço de tempo este gênero foi ganhando novos matizes. As lindas canções dos anos dourados, o estilo Elvis, a Beatlemania que trouxe um estilo diferente e seduziu uma geração em 1962. Coincidência ou não, no mesmo ano, só que em maio, surge nos Estados Unidos a banda The Rolling Stones, que diferente dos Beatles já canta um rock que teria a "cara mais parecida" com aquela que escutamos hoje.

No dia 18/09/2010 celebramos (nós, amantes da música) a morte de Jimy Hendrix com homenagens. Ele foi um dos grandes da música internacional e certamente tem o seu nome perpetuado na galeria dos gênios do rock.

Anexei uma música, clássico do rock, do Jimy Hendrix, para quem aprecia a boas canções, independente de estilo. Para baixar, clique aqui.


sábado, 18 de setembro de 2010

EDUCAR OU PUNIR

A educação passa por um momento no mínimo interessante, para não dizer triste.

Conversando com um professor, ele afirmou que a escola está em extinção. Foi uma observação rápida, feita à saída de uma sala de reunião.

Refleti bastante sobre o que ele falou e acredito, sinceramente, que dependendo do recorte que fizermos, poderemos até afirmar que já se extinguiu. Mas qual é então a diferença, pelo recorte, para poder afirmar que está em extinção e já se extinguiu? Acredito assim: porque podemos considerar que houve uma ruptura com o abandono total dos antigos valores, e estes, da estrutura, agonizam e não encontram eco entre as idéias liberais, que de forma tão organizada desorganizaram tanto a nossa sociedade. De outra forma, podemos considerar que se encontra em extinção porque o período é de transição, e o que acontece é um fato conjuntural, e que tudo se acomodará com o passar do tempo, só que de uma forma diferente a que os mais conservadores estão acostumados.

Diante deste quadro de mudanças dentro do mundo escolar, em que o professor que era chamado pelo nome antecedido de “Professor”, e agora é chamado por crianças de tenra idade pelo nome simplesmente, acompanhado de um “chega mais”. Diante dos palavrões que são pronunciados por alunos e alunas em qualquer setor da escola. Diante da insegurança dos profissionais da área da educação, que vêem desmoronar seu mundo porque com a escola “todo mundo mete a mão”, mesmo por quem nunca ficou fechado dentro de uma sala de aula com trinta, quarenta adolescentes, das mais diferentes origens e formas de educação, e agem como “experts”, à sombra das leis, feitas por quem, sabem os profissionais da educação, que também nunca tiverem a experiência docente. E diante de uma série de problemas que poderiam ser enumerados, remetendo todos às citações do parágrafo inicial.

Um dos grandes dilemas dos professores, e que se discute muito em encontros, é o peso de duas palavras: educar e punir, confundidas às vezes, pelas colocações equivocadas, oportunista, às vezes, políticas, geralmente por políticos, magistrados, promotores, jornalistas e educadores de gabinete.

Uma frase que tirei da leitura de um trabalho de Michel Foucalt diz assim: “É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir”.

Lembro que em uma reunião uma colega falou em punição. Sem rebatê-la porque não tinha uma posição sobre o tema, iniciei uma estratégia para entender o que estava ouvindo, e já nas primeiras observações, indaguei-me se tomar medidas que corrijam crianças e adolescentes, que sabemos nos pedem socorro como foi bem salientado por outra colega da discussão, exigem silenciosamente que seus mestres os orientem, sempre podem significar punição.

Recorro à outra idéia de Foucalt, esclarecedora:

(...) semelhante à gravitação dos corpos, uma força secreta nos empurra sempre para o nosso bem estar. Esse impulso só é afetado pelos obstáculos que a lei lhe impõe. Todas as várias ações dos homens são efeitos dessa tendência interior.

Temos que entender que estão aí algumas das idéias básicas que possibilitaram o desenvolvimento do capitalismo: o egoísmo, o individualismo e o oportunismo. E assim, se temos que entender que devemos refrear os impulsos, porque não na escola? E porque, se temos que controlá-los – os impulsos - dentro das escolas, devemos fazê-lo reféns de profissionais que citei anteriormente e que faço questão de repetir que são políticos, magistrados, promotores, jornalistas e educadores de gabinete, e podemos incluir aí, às vezes o Conselho Tutelar que é político e não técnico? Porque não podemos nós, profissionais da educação, de forma independente, alicerçados em conhecimentos arduamente obtidos em inúmeras horas de estudo em bancos universitários, em intermináveis noites, domingos e feriados de leituras, decidir com mais autoridade sobre o destino da escola sem ter que ser submetidos aos mais profundos desconhecedores do ensino, investidos por ampla e triste autoridade, mas infelizmente vazios de uma legitimidade desalentadora?

Esse é um tema interessante, que poderia e deveria ser alvo de um amplo debate, tendo em vista o medo negado pelos profissionais da área da educação, mas que existe. Sabe-se que a cada palavra pronunciada uma dúvida, a cada gesto um receio, e para a infelicidade de todos e o mal geral da nação, o desconhecimento do presente nega posições ao futuro... bem próximo.

domingo, 12 de setembro de 2010

TEXTO ESQUECIDO

Temos uma característica interessante que é esquecer. Às vezes ela se mostra positiva, às vezes negativa.
Posso imaginar se lembrássemos a dor com a mesma intensidade, que pavor seria revivê-la a cada momento. Então é positiva a capacidade de esquecer. Entretanto, em outros momentos da nossa vida essa característica pode tornar-se nossa inimiga.
Lembro que há alguns anos atrás, o assunto mais discutido na imprensa eram os trangênicos. Na onda dos acontecimentos escrevi um texto que o jornal não quis publicar. Então, aproveito este espaço para fazê-lo, pois embora ligado a um momento específico, não esvaiu-se em seu teor.

O PINTO TRANGÊNICO DO PRESIDENTE TEODORO

A polêmica estava formada em Malandrová, entre os Modernistas e os Caipiras. Os Modernistas defendiam as transformações tecnológicas, mas os Caipiras, conservadores, alegavam que o que os Modernistas realmente queriam era defender o interesse dos grandes proprietários, ricos e poderosos, em detrimento aos interesses populares e da nação.

O motivo para o recrudescer das relações entre as partes, deveu-se a inovação no campo da genética que os Modernistas defendiam com unhas e dentes. O professor Raposo Mão Santa, professor universitário, disse que desenvolveu em seu laboratório de pesquisas, nada mais, nada menos, do que um frango modificado. A invenção para os Modernistas significava a descoberta da galinha dos ovos de ouro, ou melhor, o frango com ovos de ouro... ou quase. As modificações obtidas em laboratório, segundo o pesquisador, trariam uma melhoria em termos econômicos para os criadores. Os novos galináceos apresentavam maiores coxas, maiores peitos, asas menores e praticamente nada de cérebro. Entretanto, para conseguir levar a cabo a experiência, o pesquisador teve que aceitar algumas transformações mais radicais na ave e a principal, foi a inversão do aparelho digestivo. Assim, a cloaca ficou na cabeça, o que junto a diminuição do cérebro deu uma característica toda especial ao bichinho. Consequentemente, a boca ficou onde antes se localizava a cloaca.

Para apaziguar os ânimos, lá em Malandrová, entre os Modernistas e os Caipiras, foi convidado para mediar a contenda o próprio presidente (Teodoro, liberal de última hora). Os Modernistas, espertos, para promover seu produto, anteciparam-se aos Caipiras e deram ao presidente um pintinho modificado. Lisonjeado, o primeiro mandatário agradeceu e foi para a entrevista coletiva. Lá chegando, colocou o pinto sobre seu colo e os puxa-sacos todos na volta, todos bajulando o pintinho do presidente. –Ai, que lindinho - dizia uma jornalista.- Olha, tem a cabecinha pelada e pequena dizia outro.- E é roxa!!! completou um repórter. Muitos tentavam agarrar o pintinho modificado do presidente, mas isso ele não deixava e dizia: - Se os companheiro querem olhar podem olhar, mas tocar não. Seguiu-se a entrevista e uma moça comentou, olhando e quase passando a mão na cabecinha do pintinho modificado do presidente: - Que bonitinho, tão pequenininho!

Os Modernistas, em seu canto, davam risadas a entreolhavam-se satisfeitos. Todos estavam adorando o pintinho que já não era mais visto como uma aberração, com a cloaca na cabeça, que se sentava sobre o milho às refeições, que escovava o bico de costas para o espelho. Todos estavam gostando do pintinho do presidente (Teodoro, liberal de última hora), mesmo a sua mulher que tocava na cabecinha e até em todo ele, fazendo: bilú, bilú, acariciando-o com a ponta do indicador e contornando o bico redondinho do pintinho modificado e presenteado ao presidente - afinal, ela podia. Os puxa-sacos riam, mas estes ririam até do peru presenteado ou não do presidente. Como todos riam! principalmente os Modernistas que antecipavam e indiscretamente comentavam: tá no papo do pintinho, ou melhor, o pintinho - modificado.