Relendo o Livro Sétimo da República de Platão retirei o seguinte:
(...) “em seguida”, eu disse, “ compara o efeito da educação e da sua falta na nossa natureza a uma experiência como a seguinte: imagina seres humanos habitando uma espécie de caverna (...) e ali desde a infância, fixados no mesmo lugar, com pescoço e pernas sob grilhões, unicamente capazes de ver à frente, visto que seus grilhões os impedem de virarem suas cabeças...”
E por aí segue Sócrates debatendo.
Analisando o texto, penso que os professores são a camada social privilegiada, aquela que saiu da caverna. E aí está o xis da questão: a dificuldade que ele sente quando retorna ao seu mundo original, ao qual todos nós originalmente pertencemos: o do desconhecimento.
Dentro do mundo atual globalizado, tudo se tornou mercadoria. Dessa forma, embora alguns educadores mordam a isca, e divulguem aos quatro cantos do mundo fartos textos sobre reprovação e repetência, devemos considerar o que os educadores de gabinete desconsideram: é que para o sistema, aluno repetindo é custo. Mais importante para os administradores da educação neste país é que eles consideram que aluno é estorvo, professor é estorvo. Só conseguem enxergar a educação, absurdamente, como uma atividade não produtiva, porque não acontece a troca imediata com seu respectivo dividendo. Conseqüentemente, alunos reprovados dentro da escola significam mais estorvos. Mais professores, mais funcionários, a necessidade de uma maior estrutura onerosa para o Estado, mais estorvos.
Evidente que deve prevalecer o aspecto humano, em que a reprovação tem sérias conseqüências. Mas isto tem que ser estudado não de forma tendenciosa, desconsiderando que os alunos freqüentam um meio que não tem o mínimo interesse que saiam do seu estado de desconhecimento, e que garante a sua inércia social.
Baseados nestas idéias, os “donos do poder” desviam a atenção da sociedade para a escola, colocando uma nuvem sobre os cidadãos para que não enxerguem que os problemas não estão em seu interior, eles entram junto com os alunos que trazem todos os seus problemas do mundo em que vivem. A escola não é a geradora da violência. A sociedade sim. E o descaso das autoridades diante deste sério problema coloca em risco estudantes e profissionais da educação. A escola não desfaz a estrutura básica da sociedade que é a família. O sistema sim. A escola não determina as regras do ensino. O Estado sim.
Missão difícil a do professor, que todos os dias tem que retornar à caverna, desconhecido e incompreendido por todos, deve fazer o aluno acomodado a seus grilhões, entender que a sua sombra distorcida é apenas uma imagem que não precisaria ver. Que os sons ininteligíveis, não precisariam ser escutados. Que a semi-escuridão poderia ser substituída pela majestosa luz solar.
A escola no Brasil ainda está dentro da caverna... a do mito.
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